Dia 7 - Instinto de repórter

Esses ribeirinhos que choram de desespero para uma completa estranha merecem a mesma dignidade de qualquer um

Millena Grigoleti

Não sei se é uma coisa comum no jornalismo, mas a gente desenvolve uma espécie de instinto para rastrear boas histórias. Nessa viagem, isso aconteceu várias vezes: bater o olho em alguém e saber que ali tinha coisa para contar. Foi desse jeito com dona Maria e Rosiane – avó e neta, mãe e filha. Na manhã de segunda-feira, 17, a senhora de 64 anos andava timidamente pelo corredor do Barco Hospital. Ela foi até a recepção dizer que queria uma consulta com um oftalmologista para a menina, pois o olho estava lacrimejando. Dona Maria tem o rosto marcado pelo sol, os cabelos pretos já marcados pelo tempo e aquela marca que a vida sofrida deixou na maior parte desse povo: a do silêncio, do conformismo.

Já eram mais de 10h e frei Joel disse que as fichas para os médicos de olho já tinham acabado. Dona Maria concordou, enquanto meu coração se espremia um pouquinho. Os médicos já estavam sobrecarregados, cansados, atendendo além da capacidade. Frei Joel olhou bem para a senhora e disse baixinho “me passa os documentos dela”. Em poucos minutos uma inquieta Rosiane, que emite sons que só a avó entende, estava no consultório. Foi um desafio examinar olhos atentos de uma criança que estava estranhando aquela aparelhagem grudada no seu rosto, mas o doutor concluiu que não havia nada de grave e receitou colírios e compressa com soro – ele explicou várias vezes a dona Maria o que fazer, já que a idosa não sabe juntar as letras e pediria a uma filha que desse instruções.

A menina saiu do consultório com folhas para desenhar, giz de cera e um balão feito com uma luva. Rosiane tem 3 anos. A mãe, de mesmo nome, morreu pouco depois do parto. Dona Maria conta que não ficou sabendo imediatamente do falecimento de uma das 14 filhas – uma outra também faleceu, e a senhora não se conforma com a perda delas. “Desde então crio a Rosiane e vou criar até morrer.” Pego almoço para as duas, mostro onde é a farmácia, dou um beijo na menina e desejo boa sorte. Ali, com aquela senhora marcada por um monte de coisa, cuja neta a chama de “mãe”, realmente tinha muita história pra contar.

O dia tinha começado mais cedo. A professora Angelina concordou em abrir as portas de casa para que eu entrasse, não antes que meu medo de altura me pusesse em um certo apuro. Isso porque me acostumei a andar pelas duas tábuas do meio do trapiche, e ainda assim com certa insegurança, mas para chegar à sua casa havia três tábuas na ponte – ou seja, não havia dois pedaços de madeira no meio. A construção também ficava em um ponto mais elevado, acessado por uma pequena escada. Dona Angelina e uma vizinha tentaram me conduzir pela mão, uma de cada lado, mas, apesar de toda a força de vontade que tentei reunir, travei e, tremendo, disse que queria descer e perguntei se não havia como ir por terra. Ainda bem que a resposta foi positiva, caso contrário a entrevista teria de acontecer por ali mesmo. Elas riram e ainda me mostraram um pequeno caminho de madeira, ainda mais estreito e ainda mais alto, por onde andam na época das cheias.

Batimentos cardíacos normalizados, caminho de terra cumprido, foram vários minutos de conversa, em que fiquei sabendo que por aqui é possível, literalmente, levar a casa embora. Sim, o imóvel. Quando é época de cheia, o dono que construiu uma moradia ou quem a adquiriu do antigo proprietário pode retirar as estacas que a prendem no chão, amarrá-la a um barco e levar para outro lugar, onde for de seu agrado. Móveis também chegam pelo rio, por um barco mercante ou o consumidor vai até a cidade e paga para entregar. Fruta é coisa rara, e também vem dos vendedores do rio. “Quando passa, todo mundo compra”, diz Angelina.

Uma das coisas que achei mais bonitas é que nas três comunidades havia traves de futebol, em pequenos campinhos. Nas três por onde passamos – Ipanema, Purus e Vira Sebo –, eles estavam cobertos de água. Dona Angelina me conta que o pessoal até organiza campeonatos de futebol na época em que o rio fica estreito.

O fim

Depois que os atendimentos terminam, é hora de todo mundo se reunir em frente ao barco para o encerramento da missão. Um por um, os voluntários são chamados e recebem os agradecimentos da tripulação, ganhando um certificado de gratidão. Cada um faz um pequeno discurso, geralmente regado com algumas lágrimas. Alguns moradores da comunidade ficam por ali assistindo. Ao soar da buzina, todos subimos no barco enquanto acenamos para as crianças – algumas deixamos com a promessa de enviar fotos – e adultos. Uma cena que merecia ser emoldurada.

Durante a cerimônia, a líder da igreja local conta que muitas vezes os profissionais de saúde atendem mal, mesmo na rede particular. “Ou seja, não atendem nem pelo amor nem pelo dinheiro. Não sei o que estão fazendo lá.”

Para todos ali, os médicos do Papa fizeram o oposto: animação mesmo estando exaustos, ouvindo mesmo tendo mais uma centena de pacientes do lado de fora. No meu discurso, reforço que o barco é apenas uma carcaça sem os profissionais, que eles trazem a expressão do amor – de tão longe, com tantas histórias diferentes, que deixaram famílias, esposas, namorados e porquinhos da índia em casa e formaram uma engrenagem de saúde que funcionou perfeitamente durante uma semana e se doaram de verdade a um povo esquecido, pessoas que provavelmente não verão de novo, de um Brasil que parece não existir para quem deveria cuidar dessa gente envelhecida antes do tempo, maltratada pelo peso, calada pela opressão, sem perspectiva.

Enquanto navegamos, no fim da tarde, em um por do sol de fazer perder o fôlego, um punhado de meninos está jogando futebol na margem do rio – o sonho quase unânime dos garotos, né? Eles estão longe de qualquer casa e me pergunto como chegaram lá. Imagino que em barcos pequenos e canoas. Aí penso novamente: aqui também é Brasil. Essa gente também está aqui. Esses ribeirinhos que choram de desespero para uma completa estranha merecem a mesma dignidade de qualquer um. Não sei porque é tão fácil para todo mundo, população e governantes, nos esquecermos disso – será que a floresta e o rio que está entre nós e eles tampam nossa visão? Quantos mais terão de morrer para que enxerguemos?

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