Dia 6 - Lotação

Não há funcionários nem voluntários mal humorados. Quando a coisa aperta, e não é difícil isso acontecer, tudo é resolvido na base da conversa e brincadeira

Millena Grigoleti

O dia foi o mais movimentado no Barco Hospital Papa Francisco, atracado na comunidade de Vira Sebo, no Pará. A notícia de que a embarcação estava na região se espalhou e muita gente veio em busca de atendimento. Não é difícil entender. Dona Benedita, por exemplo, moradora da comunidade de Estrelas, foi diagnosticada com pedra na vesícula há dois anos. Foram algumas idas até Santarém para extração do órgão, sem sucesso, mesmo com o constante mal estar que o problema provoca. Neste domingo, 16, ela conseguiu a operação e descansava feliz no barco que a levaria de volta para casa ao lado o marido, Raimundo. O mesmo com dona Olivanei, moradora da comunidade de Quilômetro 17, que acompanhada da mãe, dona Olívia, iria embora após retirar a vesícula.

Seu Benedito tem 57 anos e nunca fez um exame de próstata. Para ele e dona Benedita eu repito a informação, difícil de assimilar: “o senhor tem 57 anos e nunca fez um exame de próstata??”, “a senhora tem pedra na vesícula há dois anos?”.

Não há funcionários nem voluntários mal humorados. Quando a coisa aperta, e não é difícil isso acontecer, já que o Papa atrai multidões para um espaço exíguo com um número limitado de pessoas, tudo é resolvido na base da conversa e brincadeira. Os médicos não recusam atendimento, sempre estendem um pouquinho mais o plantão. Preciso falar mais uma vez que os moradores são gentis e dão aqueles sorrisos que motivam a gente a sorrir junto – ninguém torce o nariz para entrevista, pelo contrário, são falantes e dizem que querem bater um papo comigo. Um dos momentos mais animados todos os dias é quando são distribuídos bolinhos de morango e chocolate. Todo mundo faz fila e às vezes as pessoas levam vários pacotes para casa.

Me chama a atenção que as perspectivas são bastante limitadas. Orgulho para os pais de meninas é que as filhas arrumem bons casamentos. Os meninos viram pescadores – as crianças desde cedo aprendem a manejar o barco e ingressam com os pais no ofício. Na comunidade de São João Batista, no Vira Sebo, em Prainha, não tem nem o ensino fundamental completo – é preciso viajar até o município, onde há faculdade, mas só particular. Para cursar uma pública, o único caminho é Santarém, a muitas horas de viagem.

Por aqui, só funciona uma operadora de telefonia, e nem é em todo lugar. As pessoas olham nos olhos, não respondem “uhum” enquanto leem mensagens, sem nem prestar atenção ao que o outro está falando. Existe de fato diálogo. As crianças realmente brincam umas com as outras, correndo e pulando.

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