Dia 5 - Emanuelle

A mãe de Gael tem 14 anos. A gravidez precoce é uma realidade da região

Millena Grigoleti

O dia amanhece com o Barco Hospital Papa Francisco na comunidade de São Judas Tadeu, em Vira Sebo. São várias frentes de trabalho: dois pontos de triagem, os atendimentos no barco, a fisioterapia e o barco de apoio, onde os pacientes aguardam. Logo cedo, um problema grande e que assustou todo mundo: uma parte do trapiche da escolinha caiu com várias pessoas em cima, inclusive um bebê, Gael, de 26 dias de vida. Por sorte, foi só o susto e ninguém se feriu gravemente – todos passaram por atendimentos e uma das acidentadas precisou ser medicada, tamanho o choque. O bebê nem chegou a se molhar, pois estava no colo da tia, que teve o instinto de envolvê-lo com os braços o quanto pode.

A mãe de Gael tem 14 anos. A gravidez precoce é uma realidade da região. Deparamo-nos com uma gestante de 15. Segundo relatos de quem já passou por mais comunidades, já houve grávidas de 11 e 13 anos, e alguns casos em que o pai da adolescente era também o pai do bebê – nesses casos, o Conselho Tutelar foi acionado.

Por aqui em Vira Sebo, as tábuas do trapiche parecem não estar tão firmes quanto nos outros dois locais. Há mais escadas para subir e descer até os lugares e é preciso tomar cuidado para não bater a cabeça ao passar debaixo das plataformas. Há muitas pessoas de comunidades vizinhas, que vêm e voltam de barco, inclusive após cirurgias. A realidade é variável: algumas pessoas têm placas de energia solar, outras pagam valores altos por poucas horas de eletricidade. Alguns têm geladeira, outros congelam os alimentos em gelo vendido pelos barqueiros e outros pescam cedo para comer logo depois, sem ter como conservar os alimentos. Alguns têm água tratada, outros usam cloro para tirar um pouco das impurezas, outros pegam do rio mesmo, o mesmo onde é jogado o esgoto – nesses casos, um pescador me contou que a diarreia e o vômito castigam as crianças. As “casinhas”, realidade que meus avós me contavam sobre o sítio, são bastante comuns por aqui.

Grande parte dos pacientes se queixa de dores nas costas, o que é perfeitamente justificável pela profissão da maioria: pescadores. A função obriga a ficar sentado muito tempo na mesma posição, puxar o peso das redes e, no caso das canoas, que não têm motores, o da própria embarcação. Descubro que protetor solar, como era de se esperar, é um item que não tem nas casas aqui e a proteção do sol é feita só com chapéus. Por isso muita gente parece bem mais velha do que é. São vários casos também de catarata precoce, provocada pelo sol. Dor “na pente”, a região pélvica, também é uma queixa recorrente.

Nesses dias, foram várias cirurgias de vesícula, apendicite e remoção de cistos. Um dos maiores desafios ocorreu em Purus, onde um menino estava com o joelho machucado após um tombo e seria necessário operar. A mãe recusou a princípio, mas a equipe conseguiu convencê-la que era preciso e faria bem ao garoto, que àquela altura não conseguia andar – nem sob a dor, no entanto, deixava de ser curioso, me perguntando para que servia a placa do teto e os tubos coloridos. No final, ela saiu agradecendo.

À tarde, sento um pouco no banco do barco de apoio, na “sala de espera”. De repente vem uma criança e me abraça, desse jeitinho, do nada. Pergunto o nome e ela me diz que chama Emanuelle. Questiono a idade e ela me mostra seis dedinhos. Me conta que ganhou bolinhos e mostra feliz a pilha de pacotes que vai levar para casa. Entrevisto a mãe, que Ana, que estava também com o esposo Amiraldo e a filha mais velha, Geovana, que é autista. Deixo que as meninas ouçam a voz da mãe pelo fone no meu celular. Pergunto se Manu quer desenhar, ela diz que sim. Senta no meu colo com caneta e meu caderno na mão e faz pessoinhas (assim mesmo, pequeninas) e sóis. Eu também viro criança de novo e faço árvores, nuvem e corações. Enquanto isso, ela conta que vai à escola, que tem amiguinhos, conta uma história de quando era “tinininha” e que agora ela não é mais bebê (palavras dela) e escreve Emanuelle incontáveis vezes no caderno. Quando erra, ignora e passa para a próxima linha. Ensino a escrever o nome da mãe e desenho o meu.

Percebo que ela está inquieta no meu colo (os 16 anos de diferença com minha irmã valeram para que tivesse essa percepção) e pergunto se cansou. Ela faz que sim, agora tem um lugar vago do meu lado. Coloco a menina ali e ela desenha mais um pouco. Digo para minha mais nova amiga que preciso trabalhar mais um pouquinho, deixo uma folha para ela e a irmã e uma caneta, para que desenhem um pouco mais em casa, dou um beijo e digo tchau. Ela responde “não vou chorar por ti”. Falo parabéns com a coragem que consigo reunir e vou entrevistar um senhor que estava ali perto – mal sabe Manu que, no fundo, era a tia que estava com vontade de chorar.

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