Dia 4 - Quando a saudade apertou e eu ajudei um paciente

Tirei o crachá e a câmera do pescoço, baixei o caderno e fechei os olhos. Deixei que algumas lágrimas caíssem

Millena Grigoleti

Na sexta-feira, o dia amanheceu meio nublado em Aparecida, na comunidade de Purus, meião do Amazonas, no Pará. Eu já tinha feito várias entrevistas quando frei Joel colocou o Santíssimo em exposição, perto do navio. Ele disse que seriam aproximadamente 30 minutos de oração. Tirei o crachá e a câmera do pescoço, baixei o caderno e fechei os olhos. Deixei que algumas lágrimas caíssem – a essa altura, segundo dia sem nenhum sinal telefônico, meu coração já estava apertado de saudade de casa e de todo mundo que eu deixei nela.

Pode parecer bobo chorar menos de uma semana depois de deixar Rio Preto, principalmente num lugar com tantos problemas mais sérios, tantas dores mais urgentes, tantas questões muitas vezes sem solução, tantas coisas que não vão se resolver com um abraço apertado em menos de uma semana. Acho que no fundo, no entanto, era justamente esse o problema: eu precisava contar para aqueles que amo tudo aquilo que tinha visto para validar as informações, uma realidade tão violenta que fez com que eu precisasse me encostar na parede para assimilar e respirar um pouco ou tivesse que repetir o que o entrevistado estava me dizendo para confirmar: “o senhor tem 57 anos e nunca fez um exame de próstata??”.

O momento da oração que mais me emocionou foi em uma música que falava de um Jesus que vinha até as pessoas, tão perto que era possível tocá-lo – e aí não pude deixar de pensar no Barco Hospital Papa Francisco. Seja qual for a religião de quem estiver lendo esse texto, seja qual for a crença de quem for atendido, é impossível não concordar: a embarcação é mais pura expressão do amor fraterno, e aqui não são necessários títulos.

Não há funcionários nem voluntários mal humorados. Quando a coisa aperta, e não é difícil isso acontecer, já que o Papa atrai multidões para um espaço exíguo com um número limitado de pessoas, tudo é resolvido na base da conversa e brincadeira. Os médicos não recusam atendimento, sempre estendem um pouquinho mais o atendimento. Preciso falar mais uma vez que os moradores são gentis e dão aqueles sorrisos que motivam a gente a sorrir junto – ninguém torce o nariz para entrevista, pelo contrário, são falantes e dizem que querem bater um papo comigo. Um dos momentos mais animados todos os dias é quando são distribuídos bolinhos de morango e chocolate. Todo mundo faz fila e às vezes as pessoas levam vários pacotes para casa.

Acho engraçado quando uma senhora me pergunta onde moro e eu respondo que é em Rio Preto e explico que é no interior de São Paulo. Ela me pergunta: “E lá é terra firme?”. Respondo que sim para uma das representantes desse povo que conhece “água grande” e “terra firme” e que anda molhando os pés sem cerimônia.

Seu Antônio, da vendinha mais perto de onde o navio está, me conta que nem conseguiu sair do comércio para ir até os médicos, tamanho o movimento. Ele vendeu doces, salgadinhos e copos de refrigerante. Os pacientes reduziram drasticamente ou eliminaram o estoque de alguns produtos.

Dos ribeirinhos mais conversadores procuro extrair mais informações sobre a vida local. Tem muito peixe e pouca carne. Se não tem mercadinho no local, coisas como arroz devem ser buscadas em Prainha ou Monte Alegre. Um desses falantes é seu Luís, que mora em uma comunidade vizinha e está no trapiche perto do barco aguardando a esposa sair da consulta. Ele me conta um pouco sobre a pesca e os peixes que mais pega, sobre os sete filhos e os 11 netos. Dali a pouco, chega dona Rosinalda. Conversamos um pouco e ela me conta que seu Luís está com um cisto no braço há anos e a coisa só está que cresce, deixando-a preocupada.

Pergunto o que levou a deixar aquilo tanto tempo e a resposta é um misto de medo (está do lado esquerdo, então seu Luís acha que está perto do coração) com dificuldade para chegar a um doutor. Ela me diz que não conseguiu avaliação para cirurgia. Levo os dois até o Barco e mostro com quem devem conversar. A funcionária chama o cirurgião, que avalia seu Luís e resolve que, mesmo sendo fim de tarde, daria para operar, sim. Enquanto o marido está em cirurgia, uma feliz dona Rosinalda fala para as pessoas no corredor que se não fosse eu a família iria embora sem cirurgia. Me dá um abraço apertado, pela cintura, em agradecimento. Menos de meia hora depois, seu Luís sai da sala de cirurgia, tudo certo, pode ir para casa. Era só um cisto, foi menos de meia hora, foi uma coisa que qualquer um faria por qualquer pessoa (um minuto de conversa resolveu tudo), mas só isso valeu a viagem inteira.

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