Dia 3 - O dia da música

No terceiro dia de expedição conheça o povoado de Aparecida de Purus, no Pará

Divulgação Associação Lar São Francisco de Assis

O povoado de Aparecida de Purus, no Pará, com seus pouco mais de 200 habitantes, não tem água tratada. Há uma pequena venda bem perto de onde atracamos e a locomoção é feita pelos trapiches – aqui a necessidade deles parece ser ainda maior que em Ipanema. Há mais crianças, também. Aos montes, correndo aqui e ali com uma destreza muito grandes sobre as rampas – tanto que chega a me dar taquicardia, porque eu mesmo preciso me segurar para não escorregar.

O dia no Barco Hospital Papa Francisco começa cedo – os atendimentos são a partir das 8h, mas a triagem começa bem antes. Há uma rotina: todo mundo acorda, toma café e desce. Nas primeiras horas o movimento é maior, depois vai se acalmando, conforme os pacientes fazem seus exames e ficam por ali esperando o retorno. Na hora do almoço o pessoal sobe, come e já volta a trabalhar de novo, sem descanso. Quando o dia é encerrado, no fim da tarde, o pessoal sobe, anda pelo barco conversa um pouco. Todas as vezes que o sino toca é porque a comida está na mesa. Nesta quinta-feira, 13, dois pacientes e sua família (os dois são da mesma) passaram a noite no barco de apoio, pois retiraram hérnias e não poderiam voltar para casa. Os parentes jantaram conosco, no “Papa”, como é carinhosamente chamado.

Pessoas de várias comunidades do entorno vêm até Purus para tentar atendimento. Me chama a atenção o fato de tratarem uma menina forasteira, com um prendedor de crachá do Castelo Rá Tim Bum, por senhora. Fico constrangida em falar que não precisam me chamar assim. Os profissionais descobrem todo um vocabulário novo – dor “na pente”, por exemplo, é uma dor na região pélvica.

Mais uma vez, fico impressionada como não reclamam e dizem que a vida é boa – a única queixa mesmo é com relação ao atendimento médico, custoso, que fica a seis horas de barco até Santarém. Não é uma miséria de falta de comida e nem falta higiene pessoal, mas algo mais latente, acho que é falta de conscientização mesmo. Ninguém explicou algumas coisas – todos vêm muito bem arrumados para o médico, por exemplo, com brincos, cabelo bem penteado e maquiagem, mas o conceito de “jogar fora” deles é colocar plástico e papel no rio, que a maré leva. Não existe uma consciência sobre quão prejudicial isso é.

Convidam o frei Joel para celebrar a missa na igrejinha local. Ao final, a comunidade apresentou uma música que fez em poucas horas – talvez minutos – para agradecer aos voluntários que trouxeram atendimento. Frei Joel – uma figura que merece mais do que alguns parágrafos, tamanha força e versatilidade – resolve tocar um pouco de guitarra no final. Não teve quem não ficou emocionado com a música da comunidade – afinal, antes de cantar, a professora Vera, a compositora, questionou se qualquer um faria o mesmo que os voluntários, deixando sua casa e famílias em nome de um bem maior.

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