Dia 2 - Um povo esquecido

No segundo dia de expedição, as histórias de vida de pessoas que falam em Deus e esperança

Millena Grigoleti 11/2/2020

Você pode chamar de universo, de Jeová, de cosmos, de criador. Eu, particularmente, chamo de Deus. Só ele, acompanhado pela legião de seres lá do céu, para proteger um povo que formado por pessoas que há seis anos convivem com um incômodo no olho, que se transformou em uma cegueira tão grande que só pode ser revertida com um transplante, e não foram ao médico porque é muito, muito difícil chegar até um doutor – seis horas de barco até um oftalmologista, se derem a sorte de conseguir.

Dona Maria Amélia e seu Pedro fazem parte dessa população. Ele passou pela neurologista, e ela, com lágrimas nos olhos, olhou para mim e disse que “a médica falou que é uma doença que vai avançando até ele morrer. Mas eu sirvo um Deus que tem poder.” Perguntei o nome do problema, ela não soube me dizer. O casal foi até o barco acompanhado da família inteira e a idosa me apresentou parte do pessoal. Ao longo do dia, cruzei com dona Maria Amélia andando para lá e para cá várias vezes. Seu Pedro, arrimo de família que não consegue trabalhar há vários meses, sempre muito quietinho. “Quando falta alguma coisa lá em casa os irmãos da igreja ajudam com uma cesta básica”, conta a pescadora. Questionei o que a doutora tinha falado depois de ver o exame, mas o retorno ainda não tinha acontecido.

Entre uma entrevista e outra que eu fiz, dona Maria Amélia acabou indo para casa sem me dizer qual era o diagnóstico. Perguntei para parte da sua família onde ela estava, me mostraram o caminho até a casa dela, que ficava bem pertinho de onde o navio tinha feito parada. Dona Maria Amélia mandou eu entrar, me ofereceu café e me colocou numa cadeira enquanto se sentava no chão, na entrada da sala. A filha, Raquel, foi buscar a conclusão da médica que atendeu seu Pedro: suspeita de esclerose. Ele foi encaminhado para Santarém – como vai chegar lá com os poucos recursos de que dispõe para mim é um mistério. Dona Maria Amélia me diz que não tem cura. Eu queria dizer que tem, mas sou obrigada a concordar com ela e dizer que ela tem que manter a fé.

Seu João, líder de comunidade, me conta dos vários projetos que tentou emplacar para melhorar a vida da população, como as placas solares, mas sem sucesso. O povo de Ipanema, na cidade de Prainha, paga R$ 80 por família por três horas de energia elétrica por dia, das 19h às 22h. Água encanada não tem – quem tem condição compra, quem não tem pega em comunidades vizinhas água mais limpa do que a do Amazonas, onde o esgoto é jogado e não recebe nenhum tratamento. Seu João quase perdeu a vista por conta de diabetes e fez um exame de sangue para medir a glicose e a imunidade. Permite que eu entre com ele no retorno ao clínico geral e também fala de Deus – quando o doutor fala que está tudo bem, une as mãos em agradecimento. Quando vai embora, andando pelo trapiche, pede que eu não o esqueça. Como se isso fosse possível.

A fé é o que move essa população – se eu, que vivo em uma região em que dá para ir a pé até o posto de saúde mais próximo tenho, consigo bem entender a deles, já que esperança por aqui é o último recurso. Apesar das dificuldades, no entanto, eles dizem que a vida por aqui é boa, não reclamam, gostam de conversar e têm aquele sorriso puro de gente simples, que mais do que com a boca, ri com os olhos e com a alma. O único problema mesmo é a falta de médicos – o rio Amazonas que existe entre eles e a população mete medo até em quem tem intimidade com essa imensidão de água. Acho que apenas uma ou duas pessoas não quiserem falar comigo, dentre as dezenas que abordei.

À noite, sigo com frei Joel e o marinheiro Thomé, que comanda as ambulanchas, até uma comunidade vizinha para levar pacientes que tinham passado por cirurgia. Mais uma vez, vejo que para os voluntários e os contratados do Barco Hospital Papa Francisco não existe a frase corporativista “não sou pago para isso”. Aqui eles carregam paciente no colo escada acima, com um colega apoiando a coluna para não tombar para trás; levam paciente de cadeira de rodas para dentro da lancha; carregam macas.

A comunidade é Boa Vista do Cucari. É preciso esperar levar a paciente primeiro para depois buscar o outro, na única ambulância disponível. Enquanto isso, converso com seu Thomé. Sério e calado, desde o primeiro dia ele nos explica sobre os hábitos da população. O único sinal de descontração que se permite é uma “sofrência” no alto falante da embarcação – algumas vezes, com versões de músicas famosas que tocam no sudeste, interpretadas por artistas locais.

Começa a me contar sobre suas viagens – essa nem chegou ao meio ainda e já estão programando a próxima expedição. Pergunto se tem família e filhos e ele me responde que tem dois: um que trabalha como marinheiro, como ele, e Milo, que faleceu em 2007, aos 15 anos. "Morreu de uma pneumonia, praticamente nos meus braços. Não tem como não sentir, só quem não tem sentimento", fala, apontando o coração. "Tive outras perdas também. Minha irmã faleceu aos 16, eu tinha 13. Era muito grudado nela. Depois teve meu pai, outra irmã."

Aí o relato chega na mãe, Maria da Saúde, que se foi com mais de 80 anos. Thomé conta que ela tinha problema de coração – ele tentava controlar a alimentação dela, mas era virar as costas que dona Maria aprontava. "Até que eu percebi que ela já tinha vivido muito, e o que eu podia fazer era não deixar faltar remédio, levar ao médico, que ela fizesse o que tinha direito." O marinheiro não esperava que a mãe fosse morrer atropelada por uma moto em uma manhã. "Quando vieram me contar meu chão abriu. Não sabia se vestia uma roupa ou ficava lá parado. Você fica meio adormecido, mas a dor não vai embora." Como tudo nessa viagem, a conversa com seu Thomé foi uma aula: todo mundo tem história pra contar se a gente parar para ouvir.

Todas essas perdas dão mais energia para que ele faça seu trabalho, levando os pacientes do barco. Pacientes para os quais o barco é um verdadeiro milagre, uma aparição no meio do Amazonas, uma bênção (essa palavra é muito utilizada) – e, depois dos relatos que ouvi apenas nesse primeiro dia, como o de uma criança que conviveu por anos com uma hérnia, que doía até quando ela se alimentava, e finalmente fez a cirurgia para retirá-la, sou obrigada a concordar. Na volta a única luz vinha de algumas estrelas, que foram sendo ocultadas pelo céu nublado, e da Lua, também atrás da nuvens. Só se divisa rio e floresta. Não consigo deixar de pensar: e se o barco para aqui? Mesmo sabendo, é claro, que tínhamos todos os recursos de segurança possíveis. E aí consigo entender um pouco melhor a razão desse rio colocar medo em tanta gente.

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