Dia 1 - Um Brasil chamado Amazônia

No primeiro dia de expedição, um rio que mais parece mar e uma população esquecida

Millena Grigoleti 11/2/2020

O Pará que comecei a conhecer nesta terça-feira, 10, é marrom, verde e azul – a primeira cor é a do rio Amazonas, uma imensidão a perder de vista que contorna ilhas e cidades; o segundo das árvores, de vários tons; e o terceiro do céu. O calor daqui é implacável, daquele que gruda na pele – imagine o mormaço de Rio Preto multiplicado.

A equipe de voluntários que vai trabalhar na nona expedição do Barco Hospital Papa Francisco chegou a Santarém na madrugada de terça-feira. Por volta das 5h, o navio saiu rumo a seu destino. A navegação, em um misto de obra da engenharia humana com a bondade de Deus de conceder um rio bem tranquilo neste dia, foi suave – o suficiente para esquecer por alguns momentos que estávamos no meio de um oceano de água doce.

Tudo começa e termina no rio. É dele que os moradores tiram seu sustento, com a extração de peixes e camarão; é ele que permite a agricultura, com o cultivo de produtos como feijão e abóbora; e é nele que os animais – muitos búfalos, pretos e com imponentes chifres – se refrescam do calor de muitos graus.

Estamos na comunidade de Ipanema, que pertence à cidade de Prainha – diferente da famosa orla do Rio de Janeiro, aqui as pessoas andam em pontes de madeira, construídas para que os moradores possam chegar às casas dos vizinhos na época das cheias violentas, entre março e abril, sem precisar pegar o barco. Por vezes, os trapiches são precários, e às vezes inexistentes, inacabados.

De um lado e do outro do rio, Ipanema soma 300 moradores – o que para qualquer habitante do Estado de São Paulo não passaria de um bairro da cidade pequena, aqui é considerado uma comunidade grande. A escola local tem três unidades e atende apenas ao ensino fundamental. Para cursar ensino médio ou faculdade, é necessário ir para Monte Alegre, que fica a duas horas de barco, por isso muita gente acaba se mudando para lá. Embora seja a referência, a vizinha tem ruas sem asfaltamento em locais importantes; alguns veículos não têm identificação e os motociclistas – grande parte deles, se não for a maioria – trafegam tranquilamente sem capacete, apesar da grande placa na praça central pedindo que o equipamento seja utilizado. Há lojas que são de tudo um pouco, vendendo desde iogurtes e chocolates, passando por sabão em pó e produtos de higiene pessoal até impressoras e equipamentos de informática e materiais de construção. Enquanto isso, achar um simples litro de leite que não seja em pó não é tarefa para amadores.

Não existe profissional de saúde em Ipanema – o que existe é um agente que faz visitas domiciliares, mas não dá atendimento. Para isso, Monte Alegre também é a melhor opção – acho que a melhor opção nesse caso, no fundo, talvez seja rezar para que Deus não permita que nada de extrema urgência aconteça, já que qualquer socorro básico está a duas horas pelo rio. Sem energia elétrica, os moradores conservam os alimentos com sal, o que explica a alta taxa de hipertensão entre eles. Não há saneamento básico nem água encanada – os dejetos são jogados no mesmo rio de onde a água é retirada. Quando muito, o morador tem um filtro em casa, para eliminar parte das impurezas. Só mais uma parte de um Brasil que parece ter sido esquecido.

A rotina que presenciei são as famílias em casa ou em barcos, buscando sustento, e as crianças brincando “na rua”, que por aqui são os trapiches - um menino com uma carriola, um grupo jogando e outros assistindo. Cachorros, às vezes visivelmente doentes, se estendem preguiçosamente aqui e ali.

No Barco Hospital, estão técnicos e tecnólogos de enfermagem e radiologia, enfermeiros, fisioterapeuta e médicos, além da tripulação e membros da equipe de apoio. Os atendimentos começam nesta quarta-feira, 12, e serão feitos parte na escola de Ipanema e a maioria dentro da embarcação. A espiritualidade é uma questão importante, com a celebração de missas todos os dias no fim da tarde, no barco de apoio, e uma oração pela manhã, antes do dia começar. 

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